Psicólogos monitoram tempo de tela de quase 300 mil crianças e descobrem “ciclo vicioso” alarmante
10 de junho de 2025Segundo os cientistas, passar muito tempo usando telas pode causar dificuldades emocionais e comportamentais em crianças, fazendo com que elas passem mais tempo grudadas em seus dispositivos, criando um “ciclo vicioso”
De acordo com uma nova pesquisa, passar muito tempo usando telas pode causar dificuldades emocionais e comportamentais em crianças, fazendo com que elas passem mais tempo grudadas em seus dispositivos, criando um ciclo vicioso. A pesquisa conduzida pela Associação Americana de Psicologia e publicada no periódico Psychological Bulletin revisou e analisou 117 estudos separados envolvendo mais de 292 mil crianças com menos de 10 anos de todo o mundo.
Pesquisadores encontraram fortes evidências que ligam o uso excessivo de telas a uma série de problemas socioemocionais, incluindo ansiedade, depressão, agressão e baixa autoestima. “As crianças estão passando cada vez mais tempo em telas, para tudo, desde entretenimento até tarefas de casa e envio de mensagens para amigos”, disse o autor do artigo e professor de psicologia Michael Noetel, da Universidade de Queensland, Austrália, em um comunicado. “Descobrimos que o aumento do tempo de tela pode levar a problemas emocionais e comportamentais, e crianças com esses problemas geralmente recorrem às telas para lidar com a situação”, completa.
Noetel e seus colegas se concentraram em estudos que acompanharam crianças por um período de pelo menos seis meses, oferecendo uma visão mais aprofundada de como o uso de telas e a saúde emocional se conectam ao longo do tempo. Eles analisaram todos os tipos de atividades baseadas em telas — desde assistir TV e videogames até mídias sociais e trabalhos escolares online.
A maioria dos estudos na revisão foi dos Estados Unidos, mas os dados também vieram da Austrália, Canadá, Alemanha, Holanda e outros países. Em geral, surgiu uma tendência clara: quanto mais tempo as crianças passavam usando telas, maior a probabilidade de desenvolverem problemas emocionais ou comportamentais. Ao mesmo tempo, crianças que já enfrentavam dificuldades emocionais eram mais propensas a recorrer às telas, especialmente para jogos, como forma de lidar com a situação.
O padrão variou dependendo da idade e do gênero. Crianças de 6 a 10 anos pareciam mais vulneráveis aos efeitos nocivos do tempo de tela do que aquelas de 0 a 5 anos. As meninas geralmente corriam maior risco de desenvolver problemas emocionais com o uso mais intenso de telas, enquanto os meninos eram mais propensos a aumentar o tempo de tela quando já enfrentavam tais desafios. O tipo de conteúdo também importava. Os jogos foram mais fortemente associados a resultados negativos do que o uso educacional ou recreativo de telas. Crianças com dificuldades socioemocionais foram especialmente atraídas pelos jogos como um mecanismo de enfrentamento.
Segundo Noetel, essas descobertas destacam a importância não apenas de limitar o tempo de tela, mas também de prestar atenção ao que as crianças estão fazendo diante delas e por quê. Ele sugeriu que os pais usem ferramentas como o controle parental, mas também estejam cientes de que crianças que usam telas com frequência podem precisar de apoio emocional, não apenas de regras mais rígidas.
“Este estudo abrangente destaca a necessidade de uma abordagem diferenciada para gerenciar o tempo de tela das crianças”, disse a autora principal e cientista de saúde Roberta Vasconcellos, da Universidade de New South Wales, em um comunicado. “Ao compreender a relação bidirecional entre o uso de telas e problemas socioemocionais, pais, educadores e formuladores de políticas podem apoiar melhor o desenvolvimento saudável das crianças em um mundo cada vez mais digital”, completou.
Como todos os estudos incluídos acompanharam crianças ao longo do tempo, a análise fornece evidências mais fortes de uma possível relação de causa e efeito entre o uso de telas e a saúde emocional do que estudos que oferecem apenas um panorama de um único momento. No entanto, Noetel alertou que outros fatores, como o estilo parental, ainda podem desempenhar um papel. “É o mais próximo que podemos chegar de uma evidência causal sem cortar telas aleatoriamente para milhares de crianças”, disse ele. “Mas, ainda assim, não podemos descartar completamente outros fatores — como o estilo parental — que podem influenciar tanto o uso de telas quanto os problemas emocionais”, reflete.

